Resistência: as histórias em quadrinhos tornaram-se um campo para a defesa da cultura negra e das minorias - BetaQuest

Resistência: as histórias em quadrinhos tornaram-se um campo para a defesa da cultura negra e das minorias

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As páginas das histórias em quadrinhos tem sido palco de grandes personagens da ficção. Superpoderosos ou comuns, eles servem como uma figura com a  qual o público pode se identificar fora da realidade. No entanto, não são todos os tipos de histórias que conseguem um espaço  de representação dentro desse meio. Em um contexto globalizado, repleto de recursos tecnológicos, ainda é necessário que certos grupos sociais lutem por um espaço de representatividade maior e, talvez, um dos maiores exemplos dessa resistência venha da voz e da arte da cultura negra.

A batalha pela representatividade negra dentro dos quadrinhos ganhou força com os movimentos sociais  que se deram nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX. Na época, a população do país via as mudanças ocorrerem através das ações de figuras marcantes, como Martin Luther King, Malcom X e o grupo conhecido como Panteras Negras. Porém, algumas editoras perceberam a realidade das transformações que ocorriam e decidiram tomar posição nas discussões.

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Entre as pioneiras no debate estava a companhia de quadrinhos Marvel Comics. À época, suas obras já eram conhecidas por darem um espaço de destaque para personagens considerados deslocados pelo status quo. Os personagens negros começaram a ganhar espaço dentro das histórias, até que em 1966 surge o primeiro super herói negro dos quadrinhos, o Pantera Negra. Governante de uma nação super avançada dentro da África, o Rei T’Challa apareceu pela primeira vez na edição de número 52 do “Quarteto Fantástico”.

Até esse momento a maior parte das representações do continente africano eram feitas a partir de histórias de heróis brancos, incumbidos de salvar a população local. Entre os casos mais famosos é possível rememorar as HQs do “Fantasma” e do “Tarzan”, criadas na primeira metade do século passado. Outras figuras, como Capitão América também iriam até o encontro dos povos africanos dentro de suas histórias.

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Outro personagem da Marvel que ganhou destaque no início da incorporação da identidade negra aos quadrinhos foi o herói de aluguel, Luke Cage. Ele se diferencia das demais figuras do gênero por retratar um ex-detento assumindo o papel de “anti-herói “, e lidando com questões relacionadas aos cenários da rua e da pobreza. Seu nome também é um ponto de destaque por ter sido um dos primeiros super heróis negros que não teve seu título associado à palavra “black” .

Novas Caras


Atualmente, o número de representantes da cultura negra nos quadrinhos aumentou. Novos personagens surgiram e ganharam destaque dentro das narrativas. Heróis como a Tempestade, o Super Choque, Blade e Cyborg já estamparam as capas dos quadrinhos e abordaram temáticas relacionadas à história da população afrodescendente e ao preconceito. No entanto, em meio a esse novo cenário de representação, alguns estudiosos tentam entender o papel das HQs na reprodução da cultura desse grupo social e de sua tradição.

Romildo Sérgio Lopes, é designer e escreveu sua dissertação de mestrado baseado na representação do negro dentro dos quadrinhos. Para ele, a linguagem dessa mídia pode ser mais palatável do que a de outros meios e pode servir de porta de entrada para os leitores se interessarem por determinados temas.

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Já em relação ao cenário de representatividade dos quadrinhos atualmente, ele declara: “Existe um movimento que é bacana em tudo isso, que apresenta alguns personagens que tem uma caracterização positiva. Uma representação do negro que é positiva e empoderadora, em um papel de destaque. Mas, por outro lado, existe uma baixíssima representatividade”.

De acordo com ele, muitas das representações de hoje em dia ainda seguem um modelo antigo que coloca o negro em um papel de inferioridade. Em seu trabalho, ele define algumas categorias de reprodução:

Thug style: Thug é um termo do inglês coloquial para definir bandido ou ainda assassino, matador ou rufião. Tem seu uso mais restrito aos guetos de pobreza nos Estados unidos, o que acabou por caracterizar os negros e latinos que viviam nesses locais que por força das pressões sociais passavam a viver à margem da lei. Não são gângsteres ou “gangsta”, que pressupõem crime organizado, mas a marginalidade de uma forma geral.

O termo se popularizou após o rapper Tupac Amary Sackur e seus amigos liderarem um movimento para diminuir a violência nesses bairros pobres. eles eram conhecidos como “Thugs” e passaram a adotar em suas músicas o termo thug life (vida bandida ou vida difícil). Dessa forma, uma estética fashion passa a ser construída por músicos subsequentes sem a polidez exigida a um artista. era uma estética mais bruta das ruas, de ostentação e signos de violência. Roupas largas, correntes e anéis em excesso, bonés e uma atitude rude acabaram por constituir uma identidade própria. Por vezes, Luke Cage resvala nesse modelo, mais como ícone de moda do que em termos de postura ou atitude.

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Militar: o militar é uma figura recorrente dos cinemas. A princípio como coadjuvante para em seguida ocupar o papel de protagonista. Compõem- no o respeito à hierarquia militar; subserviência e personalidade mais tímida. mesmo quando rompe com a hierarquia por questões ideológicas é para posteriormente reestruturar o próprio sistema. Não é um renegado, mas um integrado.

Líder: dentro de um projeto claro para dar visibilidade aos negros em papéis de comando ou em papéis outros que não os atribuídos dentro de um processo de excessiva caracterização, personagens negros de destaque são evidenciados na vida real, desde Collin Powell e Condolessa rice, ex-secretários de estado Americano dos governos Clinton e Bush, subsequentemente até o próprio presidente Obama; eles passam a exercer papéis de liderança. São marcados por uma personalidade forte, por convicções pessoais que os diferenciam e pelo instinto de superação.

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Regenerado: Esse é o caminho dos ex-criminosos ou infratores do código legal ou apenas heroico vigente. Tais personagens têm em sua gênese um caminho diferente do esperado de um herói, quer seja por débito com a lei ou por comportamento inadequado. em determinado ponto de suas vidas são levados a essa conversão e assim, assumem o manto de herói. esse ponto de conversão pode ser um encontro com um herói tradicional, ou a perda de um ente querido. Há sempre um link de débito com o passado, um arrependimento subjacente às ações do presente, constantemente lembrando que, para merecer ser herói, tem que haver mérito.

Dependente: o modelo de dependência tem seu discurso fundado nos séculos 18 e 19, conforme vimos anteriormente. Parte da premissa de que o negro não tem capacidade para gerir de forma positiva e propositiva a própria vida. Sendo, dessa forma, sempre dependente da intervenção do branco, este sim dotado das faculdades necessárias à transformação.

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Ainda é possível destacar que alguns personagens negros que têm surgido nos quadrinhos não são figuras inovadoras, apenas ocupam o lugar de personagens já pré-estabelecidos. Esse é o caso de Riri Williams, uma personagem que surgiu nas histórias do Homem de Ferro em 2016, do Lanterna Verde, John Stewart, e de Wally West, o Kid Flash.

Em 2011 a Marvel Comics decidiu tirar temporariamente de cena um de seus personagens mais populares, Peter Parker, vulgo Homem Aranha. Em uma história, após enfrentar alguns inimigos.  Porém, em pouco tempo o manto do Aranha já contava com um novo alter. Seu nome é Miles Morales, um jovem negro e de ascendência hispânica.

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A aceitação do personagem pelo público foi boa e sua popularidade o ajudou a ganhar destaque na editora. Nos anos seguintes, ele foi um dos únicos personagens do Universo Ultimate da Marvel após um reboot iniciado pela “Casa de Ideias”. Ao final deste ano, o herói protagonizará um longa animado conhecido como “Spider-Man: into the Spider-verse”.

Cinema e TV


Em 2018, o “Pantera Negra” ganhou sua primeira adaptação nos cinemas. A recepção do filme surpreendeu o mercado global com a quebra de diversos recordes, entre eles a arrecadação caseira da bilheteria que superou a do clássico “Titanic”. O longa de James Cameron arrecadou cerca de U$ 659 milhões de dólares enquanto o filme de Ryan Coogler conseguiu US$ 666 milhões de dólares, segundo dados do site G1.

Outro ponto que ganhou destaque veio no elenco da produção, pois este era formado em sua maioria por atores negros. O filme também gerou diversas campanhas com o objetivo de levar jovens negros de comunidades carentes ao cinema para assistir a produção.

A televisão também começou a abrir espaço para a representatividade negra vinda dos quadrinhos. Séries como Luke Cage e Raio Negro fazem parte da programação dos serviços de streaming.

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Brasil


Em  20 de julho de 2018, a obra “Cumbe” do quadrinista brasileiro, Marcelo D’ Salete, sagrou-se vencedora do Prêmio Eisner. A HQ foi escolhida a melhor dentro da categoria Melhor edição de uma obra estrangeira. “É uma premiação extremamente importante na área de quadrinhos e chama atenção para esse tipo de narrativa sobre o Brasil colonial, falando sobre essa perspectiva negra. Na tentativa de compreender, esse todo negra nos nosso país que é, razoavelmente, semelhante à experiência da diáspora africana na América.” afirmou o quadrinista em entrevista transcrita.

Marcelo conhece a realidade do cotidiano de um jovem negro em uma das maiores cidades do país. Nascido em São Paulo no ano de 1979, ele morou durante a maior parte de sua vida na periferia da cidade. Sempre frequentando a escola pública, ele começou a especializar seu ensino  partir de um curso de design gráfico, durante o período do ensino médio. Logo em seguida ele começou a estudar as artes plásticas, área na qual se graduou na faculdade. Hoje em dia, Marcelo é mestrando em história da arte e é reconhecido internacionalmente por seus trabalhos no mundo dos quadrinhos.

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“Cumbe” aborda uma parte da realidade do Brasil no século XVII, sua história narra a luta de escravos contra a violência vigente no contexto da época e a busca deles por liberdade. Além de receber o prêmio dos Estados Unidos, a HQ foi indicada para leitura em escolas de Portugal  e recebeu indicações para o prêmio Rudolph Dirks Awards. Marcelo acredita que a experiência dos quadrinhos não deve se resumir às história de super heróis. Para ele, esse espaço deve servir para uma maior experimentação.

Mesmo vendo uma quantidade relativamente baixa de obras que retratam a cultura negra no Brasil, ele ainda encara com otimismo o cenário atual. “Acredito realmente que existem cada vez mais obras falando sobre isso, trazendo esses personagens como protagonistas das suas histórias. Isso está conectado também com a necessidade do público atual, por se ver representado de algum modo nessas narrativas”, explica.


PEDRO FONSECA

Fã de super-heróis desde criança, sou um nerd/otaku convicto. Também curto esportes, video-games, filmes, séries, música e livros. Meu objetivo é evoluir sempre, por isso, entrego a vocês o melhor de mim.
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