Análise: Coringa, singular e louco - BetaQuest

Análise: Coringa, singular e louco

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Considerado um dos filmes mais aguardados do ano, Coringa tomou para si os holofotes em meio aos fãs de quadrinhos e à sétima arte. A obra de Todd Philips é uma releitura única de um dos personagens mais complexos da cultura pop. Uma visão marcada por uma atuação impecável e inesquecível para o cinema baseado em quadrinhos.

Coringa mostra que a Warner Bros ainda sabe trabalhar com seu universo de heróis, entregando um dos melhores filmes do ano. O resultado vem após uma série de equívocos do estúdio e mostra como a confiança na liberdade criativa e o risco são fundamentais para criar algo memorável.

Trama

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O filme se passa entre as décadas de 70 e 80  e tem como protagonista Arthur Fleck. Convivendo com graves problemas psicológicos, Arthur vive em uma Gotham City decadente e cada vez mais louca.

Enquanto tenta seguir a carreira de comediante e cuidar de sua mãe, ele parece ter uma vida "normal". Porém, o contato com a sociedade caótica que o cerca traz à tona um lado obscuro de Arthur.

Recomeço

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Quando a Warner Bros. anunciou que um filme do Coringa estaria em desenvolvimento, muitos fãs  ficaram apreensivos. O estúdio vinha de uma série de resultados negativos ao tentar adaptar os maiores nomes dos quadrinhos para o cinema.

Responsável por alguns dos maiores filmes de super-heróis da história, como Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), a Warner não estava em uma boa fase. O estúdio amargava a bilheteria e a crítica negativa de filmes como Batman vs Superman (2016) e Liga da Justiça (2017).

Parecia que a pressão por criar um universo compartilhado de heróis no cinema, como o de sua principal rival, a Marvel Studios, estava tirando a Warner dos eixos. Investimentos muito altos, histórias contadas de maneira muito rápida e pouco planejamento decepcionavam o público. Além disso, ficou claro que o estúdio estava interferindo no trabalho de seus diretores.

Porém, em meio ao fracasso, dois projetos fizeram com que a empresa repensasse seus planos. O sucesso dos filmes: Mulher Maravilha (2017) e, principalmente, Aquaman (2018) trouxeram as tramas fechadas de volta ao foco do trabalho.

Assim, a Warner decidiu arriscar suas fichas em contar novas histórias e que não necessariamente estivessem interligadas. Uma decisão com a qual muitos fãs já se alinhavam. Pois, entre outros fatores, a ideia permitiria as equipes criativas dos filmes trabalhassem com liberdade. Elas não teriam que seguir um panorama maior, conectado a outras histórias.

Porém, a decisão de começar seus novos projetos produzindo o longa metragem de um personagem tão complexo quanto o Coringa gerou receio e preocupações.

Quem não arrisca...

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O resultado dessa aposta? A volta o topo da DC Comics. Em um ano marcado pela estreia de "Vingadores: Ultimato" eram poucos os que esperavam por um burburinho tão grande vindo da concorrência. Apesar de não ser um sucesso comercial tão forte quanto o filme da Marvel, Coringa mostrou logo de cara que ia dar o que falar no mundo da sétima arte.

O filme surpreendeu com um elenco recheado de nomes de peso, como Robert De Niro e Brett Cullen. No entanto, o destaque foi obviamente para outra pessoa. Escalado para o papel principal, Joaquin Phoenix foi o ponto de virada para o filme. Quando o nome do ator foi especulado, muitos fãs mudaram de ideia e compraram o ambicioso projeto.

Em grande parte isso ocorreu, pois Joaquin é um conhecido ator do método e que ficou marcado por grandes papeis. Porém, apesar de possuir um talento inquestionável, o ator ainda vivia à sombra de uma grande questão. Seu trabalho seria capaz de se igualar á icônica interpretação de Heath Ledger como Palhaço Assassino?

Apesar de inesquecíveis, as apresentações não podem ser comparadas. As duas representam releituras distintas de diferentes gênios. No entanto, apesar de Ledger ter marcado uma geração com sua interpretação em O Cavaleiro das Trevas, é a vez de Joaquin receber os aplausos.

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É ele que carrega o filme em uma interpretação perfeita do personagem. O ator transita entre diferentes personalidades e diferentes encarnações do vilão que possui uma bagagem imensa dos quadrinhos ao longo de seu 75 anos.

Para dar cara ao Coringa, Phoenix incorpora trejeitos em uma versão própria do personagem. Uma versão que garante fidelidade à loucura. Entre as danças, as caretas e os risos de Arthur Fleck, podemos perceber uma construção verossímil do personagem que se transforma de um homem comum à representação do caos.

A decisão de não incorporar totalmente nenhuma linha narrativa das histórias em quadrinhos também foi um ponto fundamental da produção. Além de garantir ao ator protagonista a liberdade para atuar, o filme soube explorar outro ponto fundamental do personagem, a incerteza.

Desde que foi criado em 1940, o Coringa recebeu várias histórias de origem mas nenhuma realmente confirmada. Isso está na essência do personagem. Ele é um agente do caos e mostra que "basta um dia ruim para transformar o mais são dos homens em um lunático". O medo que cerca sua figura está no fato de que qualquer um pode ser ele.

Assim, mesmo tendo referências a histórias como "Piada Mortal" e "Cavaleiro das Trevas", o filme trabalha com uma visão própria do personagem. Em muitos momentos, na verdade, as referências parecem ser primordialmente a obras do cinema.

Fica clara a influência do clássico Taxi Driver. Arthur Fleck se assemelha muito ao protagonista do filme de Martin Scorcese, Travis Bickle. Dois homens incompreendidos pela sociedade que decidem tomar medidas alternativas para resolver os problemas quando chegam aos seus limites. Até mesmo a ambientação "suja" se assemelha nos dois casos.

Outro ponto importante está na capacidade de aproveitar a loucura impregnada no personagem. O filme brinca com a mente de Arthur, trazendo afirmações e questionando-as logo em seguida. A incerteza nos remete a uma digressividade na linha narrativa.

Sociedade

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Um ponto em que a obra de Todd Philips dá destaque, é o papel da sociedade na transformação de Arthur Fleck. Desde o começo do filmes somos introduzidos à premissa de que Gotham é uma cidade em decadência.

A maneira como esse fato é explicitado constrói um clima tenso ao longo da história. Os noticiários da cidade deixam claro as condições horríveis que vivem os moradores de Gotham, pelo menos os mais pobres. 

Infestações de ratos, falta de verba e péssimas condições de infraestrutura deixam a população em um estado constante de efervescência. Do outro lado, uma pequena parcela comandada pelos mais ricos, representados pela família Wayne, parece não sofrer os mesmos problemas que o resto da sociedade.

Em meio a esses dois polos, Arthur Fleck um homem com sérios problemas mentais luta para se manter estável em meio aos demais. Constantemente surrado e desafiado, é fácil entender a preocupação que o público tinha de que o personagem pudesse vir a se transformar em um anti-herói.

É o constante contato da instabilidade de Arthur com a violência e o caos que o cercam que fazem a face oculta dele vir à tona. No entanto, ele não é um herói. Apesar de mostrar que ele também é uma vítima exposta aos problemas da sociedade, o filme deixa claro em diversos momentos que ele não é inocente.

As motivações do personagem são questionadas  e quando ele finalmente mostra sua verdadeira face ao mundo, vemos uma quebra da inocência. A partir desse ponto não é mais a cidade que influência Arthur a se transformar e sim, o contrário. Ele torna-se o fogo que queima o pavio e instaura a anarquia.

Mídia

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A mídia também ganha destaque. É através dela que conhecemos a situação de Gotham. É através dela que Arthur Fleck e o resto da a população vêem o que acontece ao seu redor. Aqui o personagem de Robert De Niro brilha como uma luz para protagonista.

De Niro interpreta o apresentador de um programa de entretenimento a quem Arthur idolatra. A maneira como o protagonista passa enxergar a celebridade ao longo do filme altera completamente a maneira como ele vê o resto do mundo.

É somente quando o Coringa vem às telas que descobrimos ele completo. Sua ideia é passar uma mensagem. Para isso, ele usa o poder da televisão.

Resultado Final

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Coringa era o acerto que a Warner e os fãs de quadrinhos precisavam no cinema. Uma releitura única do material original. A obra cumpre toda a construção de expectativa que foi criada ao redor dela. O filme é com certeza uma das produções mais impactantes do ano. A atuação de Joaquin Phoenix também é irretocável.

Tanto a obra quanto o ator merecem estar concorrendo como favoritos nos próximos circuitos de premiação do cinema.

Coringa

Todd Phillips (2019)



9.1


Enredo: 9.5
Visual: 9.0
Som: 9.0
Coerência: 9.0

Revisado por:

Pedro Fonseca

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